Para quem recebe as notícias da agência Fides, é fácil tomar conhecimento dos discursos do Cardeal Arinze. No entanto, como é pouco difundida em Portugal, tomei a iniciativa de divulgar partes seleccionadas do discurso, com pequenos comentários meus. Acho muito proveitoso ler:
_______________
«(...) Na liturgia sagrada a Igreja celebra os mistérios de Cristo por meio de sinais, símbolos, gestos, movimentos. Elementos materiais e palavras. Na nossa reflexão concentrar-nos-emos nas palavras usadas na adoração divina de rito romano ou latino. Os elementos chave da liturgia sacra, o sete sacramentos, vêm de Nosso Senhor Jesus Cristo, o próprio. À medida que a Igreja se difundia e crescia entre os povos e culturas diversas, foram desenvolvidos diversos modos para celebrar os mistérios de Cristo. [futuramente, o Papa S.Pio V, numa tentativa de uniformizar os ritos da Igreja, criou o Rito Tridentino, que juntava todos os ritos anteriores e resumia toda a história da Liturgia da Igreja] (...) As características fundamentais de cada rito remontam aos primeiros séculos, aos traços essenciais da era apostólica, se não mesmo à época de Nosso Senhor. O rito romano, que é o objeto da nossa reflexão, na época moderna, como dissemos, é a expressão litúrgica predominante da cultura eclesiástica por nós chamada latina. (...) A maior parte desses ritos possui uma língua original, que dá também a cada um a sua própria identidade histórica. O rito romano tem o latim como língua oficial. As edições típicas dos seus livros litúrgicos foram sempre publicadas em latim até hoje. É um fenômeno importante o facto de que muitas religiões do mundo, ou as suas ramificações principais, tenham uma língua que lhes é cara. Não podemos pensar na religião hebraica sem pensar na língua hebraica. O Islão tem o árabe. O hinduismo clássico considera o sânscrito como língua oficial, o budismo tem os próprios textos sacros em pali. Seria superficial da nossa parte considerar esta tendência como algo de esotérico, estranho, fora de moda, antiquado ou medieval. Significaria ignorar um fino elemento da psicologia humana. Nas questões religiosas as pessoas tendem a conservar aquilo que receberam das origens, o modo em que os seus predecessores articularam a própria religião e oraram. As palavras e as fórmulas usadas pelas primeiras gerações são caras [ou deveriam ser] àqueles que hoje as herdam. Se é verdadeiro que não se pode certamente identificar uma religião com uma língua, a maneira na qual essa se compreende pode representar uma particular expressão linguística em uso no seu clássico período de crescimento. (...) no quarto século, o latim havia já substituído o grego como língua oficial da Igreja de Roma. Entre os Padres latinos mais importantes da Igreja que escreveram em modo extensivo e belo em latim figuram Santo Ambrósio (339-397), Santo Agostinho de Hipona (354-430), São Leão Magno ( + 461) e o Papa Gregório Magno (540-604). O Papa Gregório, em particular, levou o latim aos máximos esplendores na liturgia sacra, nos seus sermões e no uso geral da Igreja. A Igreja de rito romano mostrou um excepcional dinamismo missionário. Isto explica porque grande parte do mundo foi evangelizada pelos araltos do rito latino. Muitas línguas européias modernas afundam as próprias raízes na língua latina, algumas mais do que outras. Exemplos disso são o italiano, o espanhol, o romeno, o português e o francês. Mas também o inglês e o alemão possuem muitos elementos de latim. Os Papas e a Igreja encontraram o latim muito adequado por várias razões. É uma língua justa para uma Igreja que é universal, uma Igreja na qual todos os povos, línguas e culturas deveriam sentir-se em casa, e nenhum é considerado estrangeiro. Além disso, a língua latina tem uma certa estabilidade que as línguas faladas quotidianamente, nas quais as palavras frequentemente mudam de tonalidade e significado, não podem ter. (...) O latim tem a característica de possuir palavras e expressões imutáveis de geração em geração. Esta é uma vantagem quando se trata de articular a nossa fé católica e preparar documentos papais ou outros textos da Igreja. ... O Bem-Aventurado Papa João XXIII na sua Constituição Apostólica Veterum Sapientia, ... , dá estas duas razões e fornece uma terceira. A língua latina tem uma nobreza e uma dignidade não desprezáveis (cf. Veterum Sapientia, 5, 6, 7). Podemos acrescentar que o latim é conciso, preciso e poeticamente equilibrado. Não é admirável que pessoas, especialmente clérigos, se bem formados [e sem os boicotes constantes dos Bispos que tentam impedir o estudo de Latim por parte dos seminaristas, assim como o uso de batina e tantas outras coisas], possam encontrar-se em reuniões internacionais e serem capazes de comunicar entre eles ao menos em latim? E, ainda mais importante, será talvez admirável que mais de um milhão de jovens tenham podido encontrar-se na Jornada Mundial da Juventude em Roma em 2000, em Toronto em 2002 e em Colônia em 2005, e cantar partes da Missa, e especialmente o Credo, em Latim [atingindo, assim, uma comunhão profunda que, para além de se fundar em Deus, se funda num modo de falar comum] ? Os teólogos podem estudar textos originais dos primeiros Padres latinos e dos escolásticos sem muitas dificuldades porque estes textos foram escritos em latim. (...) “A acção litúrgica torna-se mais nobre quando os ritos sacros são feitos solenes no canto" (Sacrosanctum Concilium, 113). Há um velho ditado: bis orat qui bene cantat, que significa, “reza duas vezes quem canta bem”. Isto porque a intensidade que a oração adquire quando cantada aumenta o seu ardor e multiplica a sua eficácia ... A boa música ajuda a promover a oração, ao elevar o animo dos fiéis a Deus e a dar às pessoas um sabor da bondade de Deus. (...) O canto gregoriano é caracterizado por uma cadência meditativa emocionante. Toca em profundidade o ânimo. Mostra alegria, tristeza, arrependimento, petição, esperança, louvor ou agradecimento, como pode indicar a festa particular, parte da Missa ou uma outra oração. Torna mais visíveis os Salmos. Possui um fascínio universal que o torna adequado a todas as culturas e a todos os povos. ... Ressoa nas catedrais, nos seminários, nos santuários, nos centros de peregrinação e nas paróquias tradicionais. ... O Concílio Vaticano II louvou-o em 1963: “A Igreja reconhece o canto gregoriano como canto próprio da liturgia romana ao qual ocorre reservar, em paridade de condições, o primeiro lugar nas acções litúrgicas" (Sacrosanctum Concilium, 116). (...) Não é verdade que os fiéis leigos não querem cantar o canto gregoriano [quantos querem... basta visitarem a Casa de Sarto e percorrem os inúmeros links]. O que pedem é que os sacerdotes, os monges e as religiões compartilhem este tesouro com eles. Os CDs produzidos por monges beneditinos de Silos, da sua casa geral em Solesmes e por muitas outras comunidades são muito vendidos entre os jovens [os jovens, como eu, sentem no Novus Ordo um vazio de Deus. embora Ele esteja lá, a sua manifestação é menos magnificiente. Destitui-se Deus do seu lugar de Rex]. Os mosteiros são visitados por pessoas que querem cantar as laudes e especialmente as vésperas. No decurso de uma cerimônia para a ordenação de onze sacerdotes que celebrei na Nigéria no ano passado, cerca de 150 sacerdotes cantaram a primeira oração eucarística em latim. Foi muito belo. Os fiéis presentes, mesmo se não eram escolásticos latinos, apreciaram muito. Deveria ser normal que nas paróquias onde há quatro ou cinco missas aos domingos, uma dessas fosse cantada em latim [realmente, pelo menos uma, para que na Igreja haja lugar para todos].
Alguns pensam, ou dão a impressão, de que o Concílio Vaticano II tenha desencorajado o uso do latim na liturgia. Não é assim. Pouco antes de abrir o Concílio, o Beato Papa João XXIII, em 1962, escreveu uma Constituição apostólica, para insistir no uso do latim na Igreja. O Concílio Vaticano II, ainda que tenha admitido uma certa introdução da língua vulgar, insistiu sobre a importância do latim: “O uso da língua latina, salvo direitos particulares, seja conservado nos ritos latinos" (Sacrosanctum Concilium, 36). O Concílio solicitou também aos seminaristas “adquirir o conhecimento da língua latina necessário para compreender e utilizar as fontes de tantas ciências e os documentos da Igreja (Optatam Totius, 13) [mas os Bispos não deixam, e não se vê o Papa contradizer isso]. (...) É importante o facto dos jovens aceitarem de bom grado a Missa celebrada em latim. Certamente os problemas não faltam. Há também mal-entendidos ou abordagens erradas por parte dos sacerdotes no uso do latim. Mas para melhor centrar a questão é necessário antes de tudo examinar o uso do vernáculo na liturgia de rito romano hoje.
(...) Como já citado, o artigo 36 da Constituição da Liturgia Sacra começa decretando que “O uso da língua latina, salvo direitos particulares, seja conservado nos ritos latinos”. O artigo 54 ditava os passos a seguir para “permitir aos fiéis recitar ou cantar juntos, também em língua latina, as partes do ordinal da missa que lhes cabem”. Na celebração da Liturgia das Horas, segundo a tradição secular do rito latino, pede-se aos clérigos de “manter a língua latina” (SC, 101). (...) O vernáculo havia sido introduzido. O resto é história. Os desenvolvimentos foram tão rápidos que alguns clérigos, religiosos e fiéis leigos hoje não são conscientes do facto de que o Concílio Vaticano II não introduziu a língua vulgar em todas as partes da liturgia. Pedidos e extensões do uso do vernáculo não foram atendidos. Sob a urgente solicitação de algumas Conferências Episcopais, o Papa Paulo VI autorizou a celebração do Prefácio da Missa em vernáculo, e posteriormente, ..., do inteiro Canone e das orações de ordenação. Enfim, ..., a Congregação para o Culto Divino expediu uma comunicação na qual se afirmava que as Conferências Episcopais podiam autorizar o uso do vernáculo em todo os textos da missa [mais uma vez realço o papel dos Bispos. é triste saber que foram alguns deles que forçaram a introdução do vernáculo, chegando isso ao ponto de haver quase uma proibição do uso do Latim, visto que a autorização está nas mãos deles] (...) As razões da introdução da língua mãe não são difíceis de encontrar. Esta promove uma melhor compreensão daquilo que a Igreja reza, porque é ardente o desejo da Madre Igreja de que todos os fiéis sejam formados nesta plena, consciente e activa participação às celebrações litúrgicas, [aqui desejo fazer um parêntesis maior: 1. Se é necessária uma melhor compreensão, ensine-se o Latim e forneçam-se missais Latim-Vernáculo; 2. A participação do fiel na Eucaristia é algo que se pode discutir, visto haver várias teorias teológicas. na minha opinião, o fiel está na Eucaristia na busca de alimento espiritual e, acima de tudo, para testemunhar a participar no Sacrifício Sagrado. no entanto, esta posição participativa deve ser limitada às leituras, ao canto e a todas as intervenções que lhe cabem, vulgarizando, as respostas às interpelações do sacerdote. porque quem ali está no lugar de Cristo é o Sacerdote, representando os fieis a comunidade eclesial, a Igreja viva, que ASSISTE à ACÇÃO DO CORDEIRO.] (...)
Os textos latinos foram preparados com grande cuidado pela doutrina, uma exacta expressão “livre de qualquer influência ideológica e que possui aquela qualidade através das quais os sacros mistérios de salvação e a indefectível fé da Igreja são eficazmente transmitidos por meio da linguagem humana à oração, e à digna adoração oferecida ao Altíssimo (Liturgiam Authenticam, 3). As palavras usadas na liturgia manifestam a fé da Igreja e são guiadas por esta. A Igreja portanto necessita de um grande cuidado ao dirigir, preparar e aprovar as traduções, de modo que sequer uma palavra inapropriada possa ser inserida na liturgia por um indivíduo que tenha um escopo pessoal ou que simplesmente não seja consciente da seriedade dos ritos. [penso que foi um pouco o que aconteceu no Novus Ordu, com a questão do pro multis e do pro omnibus]. (...) O génio do rito latino deveria ser respeitado. A tripla repetição é uma das suas características. Alguns exemplos são: “mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa”; “Kyrie Eleison, Christie eleison, Kyrie eleison”, “Agnus Dei qui tollis...”, três vezes. ... As traduções [fala-se em traduções mas esquece-se que o Novus Ordu "cortou" algumas] não deveria eliminar ou banalizar tal característica. A liturgia latina exprime não somente factos, mas sentimentos, sensações, por exemplo diante da transcendência de Deus, da sua majestade, da sua misericórdia e do seu amor infinito. (...) Uma língua falada hoje por milhões de pessoas terá sem dúvida muitas tonalidades e variações. [é aqui que, mais uma vez, o latim ganha pontos]. (...) Na verdade, podemos dizer que a coisa mais importante no culto divino não é compreender cada palavra ou conceito. Não. A consideração mais importante é que nos encontremos numa postura de reverência e de temor diante de Deus, que adoramos, louvamos e a quem agradecemos. O sagrado, as coisas de Deus, devem ser afrontadas sem idéias preconcebidas. [aliás, noutro dia falava com alguém sobre o véu que as senhoras usavam e sobre o facto de os homens destaparem a cabeça. essa pessoa tomou comopreceito de que as mulheres deveriam usar veu e os homens deverias destapar a cabeça para criar uma barreira entre o interior da igreja e o exterior; algo como: ao passar o limiar, colocar sinais que tocam e focam o que há de transcendente] (...) Não surpreende portanto que a linguagem litúrgica se diferencie de algum modo da nossa linguagem quotidiana. (...)
Deveremos fazer o máximo para apreciar a língua que a Igreja usa na liturgia e unir os nossos corações e as nossas vozes, seguindo as indicações de cada rito litúrgico. Nem todos sabem o latim, mas os fiéis leigos podem ao menos [esforçar-se para] aprender as respostas mais simples em latim.
Que a beata Virgem Maria, Mãe do Verbo feito carne cujos mistérios celebramos na sacra liturgia, obtenha para todos nós a graça de fazer a nossa parte para participarmos com o canto ao louvor do Senhor, seja em latim seja em vernáculo.